Yalom, Irvin D. Quando Nietzsche chorou [When Nietzsche wept]. Tradução de Ivo Korytowski. - Rio de Janeiro: Ediouro, 2000.
Quem permeia por esse universo literário com certeza já leu alguma coisa ou foi indicado a ler esse livro. Até agora nunca li nenhum livro de Nietzsche. E o livro já me despertou curiosidade só pelo título, pois Nietzsche é sempre motivo de polêmica, reflexões, e filosofia sobre a vida, religião, etc. E como não se sentir curioso por um romance que tem personagens como ele, e o famoso Sigmund Freud? E além disso passei a conhecer figuras como Josef Breuer e Lou Salomé.
Quanto a essa personagem feminina a achei extremamente singular e também ocorreu uma identificação com ela, por alguns pensamentos, ou mesmo pelo próprio impulso de liberdade, de distanciar-se de convenções... Como mulher sempre me atraem personagens femininas retratadas com uma forte personalidade! E mais interessante é saber que ela existiu realmente e ficou famosa por suas polêmicas em um tempo em que ser transgressora como ela era bem mais complicado. Aliás, pensei até que o autor a usou para externar algumas de suas opiniões. As vezes fico buscando nos personagens um pouco do escritor.
As conversas entre o doutor Josef Breuer e Friedrich Nietzsche foram uma das melhores experiências que tive ao ler um romance de literatura estrangeira. É ótimo dedicar um tempo à leitura de um livro e ser presenteada com diálogos interessantes. Realmente o escritor Irvin D. Yalom tem uma escrita muito boa e consegue prender a atenção do seu leitor, principalmente por ter uma imaginação muito rica pois os dois homens nunca chegaram a ter essas conversas. Dentre tantos temas e frases que um joga para o outro, gostaria de destacar essa passagem:
- Sim, tudo que diz é verdade, Friedrich, exceto sua insistência em que escolhemos nosso plano de vida de forma deliberada. O indivíduo não seleciona conscientemente suas metas de vida: elas são um acidente da história, não são?- Não tomar posse de seu plano de vida é deixar sua existência ser um acidente.- Mas --- protestou Breuer --- ninguém desfruta de tal liberdade. Você não pode fugir da perspectiva de sua época, de sua cultura, de sua família, de seu...- Certa vez --- interrompeu Nietzsche --- um sábio judeu aconselhou seus seguidores a romper com seus pais e suas mães e a buscar a perfeição. Esse poderia ser um passo digno de um rapaz infinitamente promissor! Essa poderia ter sido a dança correta com a melodia certa. (p. 254)
Várias vezes, no decorrer do livro, bate uma vontade de fazer parte da conversa e propor a nossa opinião. Nesse caso, eu me senti empolgada com a passagem porque ela revela muito de como o ser humano pode fazer suas escolhas, mas é condicionado pela sociedade que o rodeia. Já escrevi sobre isso em outros espaços, mas voltando e focando no livro, ele revela também a personalidade dos personagens. Josef Breuer é insatisfeito com o rumo que sua vida tomou, seu trabalho, casamento, e paixões platônicas. Já Nietzsche é um homem sem pretensões materiais ou mesmo sociais, digamos, já que se tornou um nômade, sem endereço fixo e longe da família. Ao reclamar de sua vida, Josef Breuer é repreendido por Nietzsche, e nos faz pensar que o filósofo foi muito mais corajoso que o dr. Breuer. Porém, o fracasso que pensamos ter em Breuer, Nietzsche também apresenta. Ao fim, ambos acabam se ajudando em entender melhor o que os aflige. E quanto a nós, será que fazemos a dança correta com a melodia certa?
Mas Josef Breuer e Nietzsche
ainda discutem muito no decorrer do livro. Mais uma vez destaco uma passagem
pertinente e que permite mostrar a interpretação de cada um sobre a filosofia:
- (...) Perdoe-me se pareço impaciente, mas existe um fosso, um imenso fosso, entre saber algo intelectualmente e sabe-lo emocionalmente. Muitas vezes, quando fico acordado de noite com medo de morrer, recito para mim a máxima de Lucrécio: “Onde a morte está, eu não estou. Onde estou, a morte não está”. Eis uma verdade de uma racionalidade suprema e irrefutável. Porém, quando estou realmente assustado, ela nunca funciona, ela jamais acalma meus temores. Essa é a falha da filosofia. Ensinar filosofia e aplica-la na vida são empreendimentos bastante diferentes.- O problema Josef, é que sempre que abandonamos a racionalidade e recorremos às faculdades inferiores para influenciar os homens, resulta um homem inferior e mais vulgar. Quando diz que deseja algo que funcione, tem em mente algo capaz de influenciar as emoções. Bem, existem especialistas nisso! Quem são eles? Os sacerdotes! Eles conhecem os segredos da influencia! Eles manipulam com música inspiradora, eles nos apequenam com pináculos altaneiros e naves monumentais, eles encorajam o desejo de submissão, eles oferecem a orientação sobrenatural, a proteção contra a morte, até a imortalidade. Mas veja o preço que cobram: escravidão religiosa; reverência pelos fracos; estase; ódio ao corpo, à alegria, a este mundo. Não, não podemos recorrer a esses tranquilizantes, a esses métodos anti-humanos! Precisamos encontrar formas melhores de aprimorar nossos poderes da razão. (p. 280/281).
Dessa forma, para Nietzsche,
“Toda visão é relativa, assim como todo conhecimento. Inventamos nossas
experiências. E o que inventamos podemos destruir” (p. 281). Nesse ponto
pode-se perceber o quanto Nietzsche tenta demonstrar a Josef Breuer de sua
ilusão por Anna O. que o manipula com sua doença. Ao mesmo tempo ele acaba
revelando o que concluiu de sua relação com Lou Salomé: “Acredite-me Josef,
essa mulher não o ama, ela deseja destruí-lo!” (p. 283). Ou será apenas uma reprodução
da opinião de sua irmã Elisabeth acerca de Lou Salomé?
Assim, chega ao ponto em que o
paciente é o dr. Josef Breuer e não Nietzsche! Outro ponto forte do livro são
os excertos das anotações de cada um quando terminam as sessões. Além de
existirem cartas verdadeiras que são encaixadas perfeitamente no decorrer da
história. O escritor demonstrou uma sensibilidade muito grande ao fazer isso. Além de levar o leitor a querer ler as obras de Nietzsche, caso ainda não tenha feito. Eu, particularmente fui influenciada a ler o livro porque Nietzsche é um filsófoso "popular" mesmo entre aqueles que não possuem nenhum contato com filosofia. E essa curiosidade me rendeu boas curiosidades futuras.
A parte final do livro é muito interessante e onde está condensada conversas bem mais densas e reveladoras de ideias, trabalhos e pensamentos de ambos. Uma experiência muito gratificante (intensos três dias praticamente "colada" ao livro) não só por entrar em contato com o filósofo alemão mas de conhecer outras personalidades que fizeram história, mesmo que nos breves meses finais de 1882...

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