Then. Como falado anteriormente, assisti aos desfiles das escolas de samba do RJ. E a intenção aqui não é dar uma de crítica/jurada das escolas (evolução, samba-enredo, fantasia). Até porque não sou perita nisso. Quero pegar um tema utilizado por um escola que considerei bem relevante. Aliás, esse ano foi muito bom de temas. Mas como meu tempo é curto e dá um certo trabalhinho, resolvi resenhar o tema de apenas uma escola, não desmerecendo os outros claro. Por exemplo, amei o desfile da Portela, sobre a Bahia, mas não me interessaria resenhar aqui; assim como a Unidos da Tijuca, com Luiz Gonzaga, que em uma análise "carnavalesca" é rica já que a criatividade foi maravilhosa; a Vila Isabel com Angola achei fantástico! Só que não possuo leituras suficientes sobre o país (e outras desculpas esfarrapadas, já que daria mais trabalho) para poder falar com propriedade e fugir um pouco do desfile. Então a Salgueiro foi a escolhida, onde também não sou nenhuma leitura voraz de cordéis, mas porque fiquei curiosa sobre os cordéis destacados e me encantei com a criatividade do carnavalesco e a bateria da escola.
De início acho bom entendermos um pouco a dinâmica da organização do desfile. Assistindo à TV, escutei os comentaristas conversando sobre a questão do entrosamento entre as alas e alegorias. Nesse site encontrei os roteiros dos desfiles. E dá pra entender o desfile inteiro com base no roteiro da Salgueiro, por exemplo. E daí que temos os setores. Cada setor é constituído pelas alas, e sempre fechado com uma alegoria (aqueles carros gigantes!). Logo de cara achei que a escola foi muito feliz com o título do enredo desse ano: Cordel branco e "encarnado". Quando a gente pensa em cordel lembramos logo do nordeste, sertão, sol e do vermelho (encarnado)... Claro que as histórias no cordel não vem falando apenas disso.
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| Boneca de pano usada na Comissão de Frente "Caravana Arretada". A arte é uma beleza não? =) |
O primeiro setor se chama "Trovas, dança e poesia", e logicamente é aberto pela comissão de frente. Tenho uma queda por essas comissões de frente, porque pra mim, leiga, é uma das partes mais lindas e interessantes de um desfile desse. Claro que numa visão bem superficial e imediatista. Trouxeram dançarinos lembrando as feiras medievais, misturado a heróis cangaceiros salvando donzelas. Eles fazem uma coreografia onde lembram passos de ritmos do forró e do samba. A caracterização estava incrível. Como só pode ter 15 participantes (se não me engano), eles usaram bonecas de pano pra complementar os pares. E como pode ver na foto, muito bem feitas. Dessa forma, essa comissão, assim como todo o resto do setor, lembra a importância que a Idade Média teve, já que foi nessa época que temos o princípio, os trovadores, do que teremos no Nordeste, com os repentistas e cordelistas. E aí não podemos esquecer um elemento cenográfico usado pra destacar o nome da escola, onde ao redor eram usadas xilogravuras. Para que é acostumado com cordel, cangaço e outros temas nordestinos, sabe que esses desenhos sempre vem ilustrando os trabalhos. Particularmente eu os acho lindos.

O segundo setor "A corte que eu imaginei", aborda os principais personagens das histórias medievais, como os cavaleiros (época de Dom Quixote), os reis (Carlos Magno) e rainhas, príncipes e princesas e cristãos e mouros (negros). Nessa última ala é lembrado o folhetim "A Batalha de Oliveiros com Ferrabrás", de Leandro Gomes de Barros, publicado no século XVIII e "considerado o autor que inaugurou o gênero épico do cordel brasileiro". Eu não li essa história, mas já vi que há HQ lançada e essa resenha aqui é bem bacana para quem se interessou! O terceiro setor, "O romance do pavão misterioso" é sobre justamente o cordel Pavão Misterioso, de José Camelo de Melo Rezende. E é outro cordel bem famoso, que desconhecia igualmente, e em vários cantos da internet achei coisas interessantes (1) de serem lidas (2) sobre esse cordel (3). Destaque para a alegoria que fecha esse setor que é um pavão enorme (quase que não entrava na avenida) representando o cordel, claro.
O quarto setor (que pra mim foi um dos mais importantes do desfile no quesito fantasia e uma das mais "poéticas") já vem para o Nordeste, e traz "Os heróis do sertão". Entre soldados volantes, o famoso Antônio Conselheiro, Lampião e Maria Bonita, o Carcará (símbolo da resistência do sertanejo frente à aridez da caatinga) e o vaqueiro/cowboy, todos representados nos cordéis nordestinos. Tenho de destacar as fantasias do mestre-sala e porta-bandeira, que pra mim foi a coisa mais poética do desfile: se chama "o brilho do sol e o luar do sertão", e sua descrição diz assim: "no reino de Lampião e Maria Bonita, brilha o sol escaldante e a noite mais bela; esse bailar dos astros nos céus do sertão é poesia da natureza captada pelos cordelistas". Lindo né? =)
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| "O Brilho do Sol e o Luar do Sertão". |
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| Baianas de Maria Bonita. |
É nesse setor que veio a bateria da escola, representando com suas fantasias o bando de lampião, e pasmem, conseguiram fazer uma mistura de xote-xaxado com samba! Aliás, foi utilizado os instrumentos zabumba e triângulo. Ficou bem interessante a composição e só ouvindo pra entender o quanto ficou incrível. Também as baianas foram umas das mais bonitas de todos os desfiles do RJ, com uma roupa linda, representando Maria Bonita.
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| Biografia. |
O quinto setor continua mostrando personagens símbolos do sertão nordestino e da imaginação popular e também da natureza, "Sertão sobrenatural". A velha guarda da escola veio representando os coronéis, a Dona Morte, Alma Penada, Boi Mandigueiro, Caipora, Onça Caetana, Lobisomem e outras assombrações sertanejas, todos temas bastante abordados nos folhetos de cordel. O sexto setor o carnavalesco deixou pra falar sobre outra temática recorrente e se chama "Entre Deus e o Diabo". Nela vemos o destaque centrado na figura do Padre Cícero (para os mais íntimos: Padim Ciço) e junto dele as carpideiras e romeiros, todos lutando contra o mal (que vem representando com cores escuras e diabólicas), segurando seus relicários. Falando nesse padre, recordo um livro ainda recente, uma biografia feita por Lira Neto e que foi lançamento principal da Feira do Livro de 2009 em Mossoró.
A escola fecha o desfile com a sétima setor, "Cerimônia de coroação dos poetas do sertão". Uma ode aos repentistas (como Patativa do Assaré), sanfoneiros, zabumbeiros, mamulengos (bonecos manipulados) - lembrei dos bonecos de Olinda, tem algo a ver? - dentre outros. Assim encerra sua homenagem à poesia popular do cordel, que se encontra com o samba em uma noite mágica de carnaval.
Enfim, muita gente mais velha, claro; lembrou dessas particularidades cantadas pelo cordel, vindo da influencia dos trovadores por Portugal que veio a nos colonizar. O ponto alto com certeza são as abordagens dos dois cordeis e que abre espaço para conhecermos outros. Achei bem rico o desfile da Salgueiro, que ficou em segundo lugar (creio que aspectos técnicos tenham baixado sua nota). E também fiquei bem feliz de poder esse ano estar olhando o desfile carioca de outra forma. É um exercício maravilhoso essas coisas. Bem, paro por aqui, porque já está enorme esse texto hein?





3 comentários:
Parabéns Jailma, a riqueza de detalhes com que você contextualiza tuas impressões,mesmo como leiga, são incríveis e dá vontade de assistir ao desfile mesmo se fosse por um DVD, ou no mínimo ficamos com um sentimento de culpa por não ter visto em tempo real pela Tv, ou melhor seria na Sapucaí.
Parabéns,
Cal Roque.
Obrigada!
Eu fiquei com vontade de ver novamente todinho antes de escrever, mas uma hora e meia é muito tempo.
Também achei mara os cordeis em HQ hein...
Depois de ter visto esse ano as temáticas dos desfiles me deu muita vontade de ir ver um ano ao vivo na Sapucaí. Vamos? XD
Combinado, vou cobrar viu? Mas espero que seja um ano tão bom quanto essenos temas, senão você pagará os ingressos só.
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